SONETO
	
		Alma minha gentil, que te partiste
		Tão cedo desta vida descontente, 
		Repousa lá no Céu eternamente, 
		E viva eu cá na terra sempre triste.


		Se lá no assento etéreo, onde subiste,
		Memòria desta vida se consente,
		Não te esqueas daquele amor ardente
		Que já nos olhos meus tão puro viste. 

		E se vires que pode merecer-te
		Alguma cousa a dor que me ficou 
		Da mágoa, sem remédio, de perder-te;


		Roga a Deus que teus anos encurtou, 
		Que tão cedo de cá me leve a ver-te, 
		Quão cedo de meus olhos te levou.
                                                                               


		 SONETO II

		Amor é fogo que arde sem se ver;
		É ferida que dói e não se sente;
		É  um contentamento descontente;
		É  dor que desatina sem doer;


		É  um não querer mais que bem querer;
		É  solitário andar por entre a gente;
		É  nunca contentar-se de contente;
		É  cuidar que se ganha em se perder;


		É  querer estar preso por vontade;
		É  servir a quem serve, o vencedor;
		É ter com quem nos mata lealdade.


		Mas como causar pode seu favor
		Nos coraçes humanos amizade,
		Se to contrário a si é o mesmo Amor?
                                                                               


         - Luís De Cames (in Lusíadas)